Santiago



Santiago
Brasil, 2007. Roteiro e direção de João Moreira Salles. Fotografia de Walter Carvalho.

"Santiago", é um documentário sobre o mordomo argentino que trabalhou para a família do diretor durante 30 anos. Uma delícia é ter assistido no cinema do Instituto Moreira Salles, na Gávea, para ver de perto o cenário onde tudo acontecia.

As pessoas com que conversei discordam quando digo que o personagem na telona não tem carisma. Se ficasse o tempo todo falando (ainda por cima argentino, na boa), seria desesperador. Fala pelos cotovelos. A graça do mordomo é ser original, uma pessoa realmente única, que inventou um universo particular.

Durante 50 anos escreveu sobre a mais alta aristocracia, que venerava. São biografados que viveram há seis mil anos ou no mundo moderno. A vida de reis, duques, presidentes, viscondes, estrelas de Hollywood, escrita por ele a mão e em idiomas diferentes. Santiago é praticamente um personagem de Manuel Puig.

Tarde da noite, João (Moreira Salles) era pequeno e ouviu uma música vindo da sala. O mordomo estava tocando piano e usava um fraque. "Por que você está com essa roupa?", perguntou o menino. "Porque é Beethoven, meu filho".

Seu único exercício físico era "a dança das mãos". Rezava em latim, tocava castanholas e tinha uma cultura inacreditavelmente ampla. Gostava do luxo que já não existe mais. Discorre sobre as festas dos Moreira Salles, que terminavam às 7h e tinham 25 garçons. O mordomo me lembrou Anthony Hopkins em "Vestígios do dia", que interpreta um criado que se sente honrado em servir.

João volta à casa onde morou da infância aos 20 anos. Está abandonada. O filme é narrado na primeira pessoa, mas a voz é de seu irmão Fernando. A "casa da Gávea", como era conhecida, tinha 12 quartos, 22 empregados, e hospedava Cristina Onassis. No final o diretor faz um mea culpa sobre a forma autoritária que conduziu o filme, o que se percebe logo: começa com João negando um pedido ao ex-empregado. O documentário foi filmado em 1992, e abandonado durante 13 anos, período que o documentarista fez outros trabalhos: Notícias de uma guerra particular, Entreatos, e Nelson Freire. João ajusta contas com o seu passado e deixa a câmera ligada.

Santiago gostaria de saber que sua vida foi documentada com tanta classe. Uma jóia.

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2 comentários:

Cármen Neves disse...

Querida, eu ADORO FILMES: adoro os Salles também. Explico: eles são pessoas humildes e inteligentes. Não, não os conheço, mas, assisti entrevistas deles( seria uma honra conversar, trocar idéias , falar de cimena, livros...) Sabe, meus dois úlitmos livros, dariam belos filmes brasileiros!Ainda hoje, linkarei teus blogs ao meu site e blog. Beijos

marina disse...

:o**