Dogville





(Dogville)

França, 2003. De por Lars Von Trier. Com Nicole Kidman, James Caan, Paul Bettany, Chloë Sevigny e Lauren Bacall.


“Não acredito em pessoas más. O convívio social é que extrai o melhor ou o pior de cada um de nós.” Lars Van Triers


A série “O Senhor dos Anéis” serviu de inspiração para o cineasta: era tudo que ele não queria fazer. O diretor foi o fundador do cinema DOGMA, manifesto assinado por vários cineastas dinamarqueses, em repúdio ao cinema feito de efeitos especiais. Embora Dogville não se autointitule Dogma, o cenário é teatral e os arbustos e o cachorro são desenhados a giz.


O que interessa no caso são as palavras e atitudes de seus personagens. É sobre hipocrisia e cinismo e também uma espécie de conto de fadas sobre a crueldade.

Gracie (Nicole Kidman, linda com franjas irregulares) chega a um vilarejo de 15 habitantes, fugindo de um grupo de gangsteres. Um rapaz chamado Tom, filósofo da cidade, resolve abrigá-la mas pra isso precisa contar com a generosidade dos outros habitantes. Então ele promove uma de suas reuniões, onde as pessoas comparecem porque há poucas coisas para se fazer num lugar onde só existe uma rua. Os moradores decidem que Gracie poderá se esconder ali, desde que preste serviços à comunidade. Mas a comunidade nunca está satisfeita e cada vez exige mais da garota, mostrando o modo como as pessoas se comportam quando agem em grupo e têm algum tipo de poder nas mãos. Por que Grace se sujeita a tantas humilhações? Li um texto que mais ou menos compara a protagonista a Jesus Cristo, lutando por uma consciência coletiva, dando a outra face - eles chegam a amarrá-la, como se ela estivesse crucificada mesmo.


Apesar das suas três horas de duração, o filme não é arrastado. Pelo contrário, é um filmaço. E o final inesperado foi aplaudido de pé em alguns cinemas da cidade. Quando a história termina são mostradas fotos em preto e branco tiradas pelo governo americano durante a crise de 29, ao som de Bob Dylan.

(James Caan aparece poucos minutos, o suficiente para mostrar uma atuação espetacular)

Dogville faz parte de uma trilogia passada na América (Lars não concorda que se diga que são filmes anti-americanos) e, embora o cineasta nunca tenha visitado os Estados Unidos (inclusive tem medo de avião), despreza a ideologia deste país. Nicole Kidman brigou muito com o diretor e preferiu não participar das continuações, a atriz não conseguiu assistir ao filme durante uma projeção especial. "Foi difícil assistir. A tela é enorme e o som e a situação... Achei que era me expor demais. Então, saí". Os cariocas foram os últimos espectadores a assistir a versão integral do filme, que foi diminuido para facilitar sua venda.


"Quando um garoto com um mouse torna tudo possível, o cinema fica chato”. L.V.T.



Dogma nasceu para provar que qualquer pessoa pode pegar uma câmara e fazer um filme. Não é preciso tanto dinheiro como se pensa: a idéia do cinema como superprodução é para ser superada, é uma bobagem, é antiquada. Bom uma câmera na mão e mil idéias na cabeça já está rodada, a Nouvelle Vague e o Cinema Novo, por exemplo, chegaram antes da sacada original de Trier.

Lars fez um filme anti-dogma, o musical Dançando no Escuro, com a cantora Björk, que pode ser chamado de uma superprodução. O filme é cult.

Em Manderlay, continuação de Dogville, o cineasta pensou em sacrificar um burrinho e o animal, estressado, acabou entrando em estado de choque. A perversidade fez com que o ator John C. Reilly abandonasse as filmagens. Lars debochou do ator e acabou dispensando a cena para que esse ato de brutalidade (que revoltou as entidades que protegem os animais) chamasse mais atenção nos meios de comunicação do que o próprio filme. Muitas vaias para ele. Sai fora.





REGRAS DO CINEMA DOGMA


1. As filmagens devem ser realizadas em locações. Acessórios e cenários não devem ser utilizados (se um acessório particular se faz necessário devido à história, deve ser escolhida uma locação da qual tal acessório faça parte).
2. O som nunca deve ser produzido separadamente das imagens e vice-versa (a música não deve ser utilizada, a não ser que esteja sendo tocada no lugar onde a cena está sendo filmada).
3. A câmera deve ser sempre segurada com a mão. Qualquer movimento ou imobilismo que possa ser obtido com a câmera, desde que segurada com a mão, é permitido (o filme não deve "ocorrer" no lugar onde a câmera está posicionada; a filmagem é que deve ocorrer onde o filme está "acontecendo").
4. O filme tem que ser em cores. Efeitos de iluminação não são aceitáveis (se a luz é insuficiente para a exposição, a cena deve ser cortada ou uma única luz deve ser acoplada à câmera).
5. Efeitos óticos e filtros são proibidos.
6. O filme não deve conter ação superficial (assassinatos, armas, etc...não devem aparecer).
7. A alienação temporal e geográfica é proibida (i.e., o filme deve acontecer aqui e agora).
8. Filmes de gênero não são aceitáveis.
9. O formato cinematográfico deve ser o de 35 mm.
10. O diretor não pode receber crédito.

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4 comentários:

Carolina M. disse...

Adoro esse filme. Me lembro que na época da estréia nenhum dos meus amigos queria ir comigo assisti-lo, assustados com a coisa teatral, achavam que era chato, arrastado. Bobagem.
Mas se não me falha a memória, a cena final com as fotos é ao som de "Young Americans" do David Bowie, e não Bob Dylan.

BethS disse...

A Carolina tá certa. A trilha do filme é discretissima, até o final exuberante com Young Americans, de David Bowie.
Adoro esse filme, mas as pessoas saiam reclamando do cinema no meio da sessão...

lola aronovich disse...

Na minha crítica da época a Dogville, eu relato a REVOLTA que o filme causou em Joinville. Pessoas saindo da sessão e tal, sabe? Tá aqui. Mas o filme é ótimo, lógico. Filmaço mesmo.
Eu gostei menos de Manderlay, mas gostei muito tb. Claro que o Von Trier não precisava manchar sua reputação com o negócio do burrinho. Tenebroso! Por que as pessoas fazem besteiras assim?

Anne disse...

Dogville é fantástico mesmo. Eu lembro que relutei muito pra assistir. Achava, como muitos, que seria arrastado e chato. Até que um dia deu um clique e comecei a ver. Não consegui parar de assistir, até o final. Maravilhoso. Mas não sabia dessa historia do burrinho. Muito cruel. Se perdeu.