O Último Tango em Paris




(Ultimo Tango a Parigi)
França, 1972. De Bernardo Bertolucci. Com Marlon Brando e Maria Schneider

Your hapiness is my hap-penis. Paul


Um dos filmes mais escandalosos e polêmicos do cinema contemporâneo, O Último Tango em Paris é na verdade um filme de amor, inquietante e triste, embalado pela nostálgica trilha de Gato Barbieri. Não é de se estranhar que Bertolucci tenha sido um famoso poeta na Itália antes de se dedicar ao cinema.

Paul (Brando), um americano atormentado pelo suicídio de sua mulher, e uma jovem atriz francesa (Schneider), se encontram por acaso num apartamento vazio. Dispostos a manter segredo sobre suas vidas, e até seus nomes, se envolvem num jogo psicológico e sexual. O Último Tango só foi liberado no Brasil sete anos depois de ser lançado - o brasileiro não podia ter acesso à pornografia, como o filme era definido pelos censores.

A Itália se portou de maneira ainda mais radical, quando em 1976 a Corte de Roma declarou que Bertolucci era obsceno, e que tanto ele quanto o produtor e os atores do filme, poderiam acabar atrás das grades, caso aparecessem na cidade. Brando - uma interpretação extraordinária, usando dezenas de cacos e falando de si mesmo* - foi indicado para o Oscar, perdendo para Jack Lemmon, por Sonhos do Passado. O filme concorreu ainda na categoria de melhor diretor. Maria Schneider, envolvida com drogas, e com facilidade para engordar, desapareceu das telas. Não antes de atuar em O Passageiro - Profissão: Repórter, de Antonioni.

* Utube

"Get the butter"



"Vou falar-lhe de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo. Família, porra de família!"


(Paul, durante a famosa "cena da manteiga")

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Com lágrimas nos olhos, me ocorre o pensamento de que no próprio ato de morrer Marlon Brando tornou-se imortal. Mas talvez ele já fosse imortal naquela época, em Paris, na Pont de Passy. Isso é certamente o que toda a equipe de O Último Tango em Paris achava, hipnotizada por sua presença. Nenhum de nós tinha encontrado uma lenda viva como ele, e, para os amantes do cinema ele era talvez a única lenda que verdadeiramente já existiu. Eu me lembro da primeira cena que filmamos. Eu gritei "OK, está bom", mas o operador de câmera, Umetelli, vermelho de vergonha, sussurrou: "Desculpe, Assim que vi Brando através da câmera, fiquei paralisado, só olhando pra ele." Tivemos de filmar a cena de novo. No Actor's Studio, ele aprendeu melhor do que ninguém como se transformar em outra pessoa, um revolucionário mexicano, um Hell's Angel, um estivador de Nova York, um rio, ou uma árvore. No cinema, um ator muitas vezes precisa realmente entrar na pele de outra pessoa. Mas eu pedi a ele para fazer o posto: trazer para sua atuação toda experiência da sua vida, como homem e como ator. Quando terminamos de filmar, ele me disse: "Nunca vou fazer um filme como esse de novo. Eu não gosto muito de atuar mesmo, mas isso foi muito pior. Do começo ao fim me senti violentado. Detalhes íntimos da minha vida, até sobre meus filhos, foram arrancados de mim e expostos para o mundo." Depois disso, ele parou de falar comigo por mais ou menos 12 anos e me fez sofrer terrivelmente, fazendo com que eu duvidasse seriamente de mim mesmo e do meu trabalho. Então um dia liguei para ele, e ele me segurou no telefone por duas horas. Tínhamos começado a nos falar novamente, como fazíamos antes, e tínhamos muito o que falar. Marlon era diabolicamente curioso a respeito de tudo. A última vez que o vi foi há vários anos, na casa dele, em Mulholland Drive, às duas horas da tarde. Nós falamos e falamos, e logo já eram oito horas, a noite tinha caído. Na escuridão, eu perguntei se ele jamais tinha percebido o quanto eu o amava.

(Bernardo Bertolucci, para o site da BBC)
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Comentário: Beth S.

Filme lindissimo e perturbador. Li uma entrevista da Maria Schneider ano passado, onde ela diz que a 'cena da manteiga' não estava no roteiro e foi proposta por Brando. Ela soube apenas em cima da hora de rodar, e quando aconteceu se sentiu profundamente humilhada... que chorou muito, as lágrimas da cena eram verdadeiras. Ela diz: "Se eu pudesse voltar no tempo, teria dito não.Ninguém pode forçar alguém a fazer algo que não está no script. Mas eu não sabia isso. Eu era muito jovem".
A entrevista está aqui. Que bom que esse blog voltou, hein?
Beijos!

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5 comentários:

BethS disse...

Filme lindissimo e perturbador. Li uma entrevista da Maria Schneider ano passado, onde ela diz que a 'cena da manteiga' não estava no roteiro e foi proposta por Brando. Ela soube apenas em cima da hora de rodar, e quando aconteceu se sentiu profundamente humilhada... que chorou muito, as lágrimas da cena eram verdadeiras. Ela diz: "Se eu pudesse voltar no tempo, teria dito não.Ninguém pode forçar alguém a fazer algo que não está no script. Mas eu não sabia isso. Eu era muito jovem".
A entrevista está aqui: http://www.telegraph.co.uk/fashion/stellamagazine/3354341/Sheandrsquos-been-tangoed.html
Que bom que esse blog voltou, hein?
Beijos!

marina para bethS disse...

Valeu, BethS. Não li a entrevista, mas sei que ela ficou muito traumatizada com o filme, era muito jovem, ainda por cima. Beijos!

marina w. disse...

Caramba, ela já está com 54 anos? Como o tempo passa, Meu Deus.Tem uma foto dela aqui, mas não se sabe a data...

http://www.imdb.com/media/rm2734395904/nm0773932

D. disse...

ai, vc sabe amo este filme, e o marlon brando.
c fez um artigo ótimo, eu sempre escrevi na hora, sem cuidado, como faço no blog, sem amarrar, um dia quero escrever legal sobre um dos filmes que eu mais gosto- preciso ter este filme e rever, só revi cenas.
tb acho ótmo vc voltar a escrever aqu, amo este espaço. amo cinemaaaaaaaaa.
bj querida, laura

masrina w. disse...

Obrigada, Laurinha.
Um beijo.